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O termo παρουσία (parousía) e suas traduções nas línguas antigas (até o século IV)

O substantivo grego παρουσία (parousía) pertence ao grego koiné e era amplamente usado entre os séculos I e IV. Seu significado básico não está ligado, em primeiro lugar, à ideia de movimento, mas ao estado de estar presente. A palavra descreve a presença real e pessoal de alguém, muitas vezes após sua chegada, mas com ênfase no resultado — estar ali, junto dos outros.

No grego secular, administrativo e político da época, παρουσία era empregada para falar da presença de reis, governadores ou autoridades imperiais. Quando se dizia que alguém gozava da παρουσία de um governante, isso significava que o governante estava presente de fato, exercendo sua autoridade, e não apenas que havia chegado em determinado momento.

📌 1 Coríntios 16:17
“Regozijo-me com a parousía de Estéfanas, Fortunato e Acaico…”
➡ Parousía = chegada/presença pessoal de pessoas vivas.
📌 2 Coríntios 7:6–7
“…Deus nos consolou com a parousía de Tito…”
“…não somente com a sua parousía…”
➡ Presença física identificável.
📌 2 Coríntios 10:10
“…a parousía corporal é fraca…”
➡ Aqui Paulo ancora o termo no corpo (sōma implícito no adjetivo).
📌 Filipenses 1:26
“…pela minha parousía outra vez convosco.”
➡ Presença pessoal renovada.
📌 Filipenses 2:12
“…não somente na minha parousía, mas muito mais agora na minha ausência…”
➡ Parousía📌 2 Coríntios 7:7
“E não somente com a sua parousía, mas também com a consolação com que foi consolado por causa de vós…”📌 2 Coríntios 10:10
“Porque dizem: As cartas são graves e fortes, mas a parousía corporal é fraca, e a palavra desprezível2Pe 1:16
“o poder e a parousía de nosso Senhor Jesus Cristo”
Mesmo aqui:
refere-se a Cristo
Pedro conecta a parousía à manifestação gloriosa, ainda que evocando o monte da transfiguração
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Grego koiné (língua original)

No próprio grego do Novo Testamento e dos textos contemporâneos, παρουσία significa:

presença pessoal

estar junto de alguém

comparecimento efetivo

chegada que resulta em presença contínua


Assim, o foco da palavra não está no deslocamento, mas na condição instaurada pela chegada: a presença.


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Latim (Vetus Latina – séculos II a IV)

Quando o Novo Testamento começou a ser vertido para o latim antigo, a palavra escolhida para traduzir παρουσία foi adventus.

No latim clássico e imperial, adventus não significava apenas “vir”. Era o termo técnico usado para a visita oficial de um imperador ou autoridade, uma chegada solene que se concretizava em presença ativa. O famoso adventus Augusti, por exemplo, descrevia a chegada do imperador a uma cidade para ali estar, governar e permanecer por um período.

Portanto, adventus comunica claramente a ideia de chegada com presença, não de um simples ato de vir e partir.


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Siríaco antigo (séculos II–IV)

No siríaco antigo, usado pelas igrejas do Oriente, a palavra grega παρουσία não foi traduzida, mas transliterada como parūsiyā.

Essa escolha revela algo importante: o tradutor não encontrou — ou não julgou necessário usar — um termo diferente, porque o conceito grego já era compreendido no meio cristão. A palavra passou a significar diretamente presença, especialmente a presença efetiva de alguém importante.

Não há, no termo siríaco, a noção de movimento rápido ou de simples chegada pontual. A ideia central continua sendo a de estar presente.


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Copta (Egito – séculos III e IV)

O mesmo fenômeno ocorre nas traduções coptas, tanto no dialeto sahídico quanto no boárico. A palavra aparece como parousia, sem tradução.

No Egito helenizado, παρουσία já funcionava como um termo técnico bem conhecido, especialmente em contextos oficiais. Por isso, foi mantido tal como no grego, com o sentido de presença real e contínua, aplicada a pessoas que compareciam e permaneciam.


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Armênio (final do século IV)

Na tradução armênia, feita no fim do século IV, os tradutores optaram por um termo nativo: nerkayutʿyun, cujo significado literal é presença.

É significativo que o armênio não tenha escolhido um verbo de movimento (“vir”), mas uma palavra que descreve estado (“estar presente”). Isso mostra que o valor semântico de παρουσία foi claramente compreendido como presença, e não apenas chegada.


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Etíope (Geʽez – início do século IV)

No geʽez, língua da Etiópia antiga, os termos usados para verter παρουσία expressam a ideia de chegar para permanecer ou estar presente após a chegada. Novamente, não se trata de uma mera vinda momentânea, mas de uma presença estabelecida.


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Gótico (século IV)

Na tradução gótica feita por Ulfilas, emprega-se um termo que comunica presença instaurada. O gótico possuía verbos simples para “vir”, mas eles não são usados neste caso. A escolha linguística indica, mais uma vez, que o sentido da palavra grega não era entendido como simples movimento.


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Síntese geral

Em todas as línguas antigas que traduziram o Novo Testamento até o século IV — grego, latim, siríaco, copta, armênio, etíope e gótico — o sentido básico de παρουσία foi preservado:

presença

estar junto

chegada que resulta em presença contínua


Nenhuma dessas tradições traduziu παρουσία como “volta”, “retorno” ou simples “vinda” no sentido moderno. Essas expressões refletem interpretações posteriores, não o núcleo semântico original da palavra.


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Conclusão

Do ponto de vista histórico e linguístico, “presença” é a tradução mais fiel de παρουσία. A opção moderna por “vinda” não nasce do significado primário da palavra, mas de decisões interpretativas e teológicas adotadas séculos depois.
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Presença e ausência: deslocamento implícito, não enfatizado

Quando a língua comum contrapõe presença e ausência, o deslocamento já está implicitamente envolvido, ainda que nunca seja descrito. Dizer que alguém estava ausente e passou a estar presente pressupõe, de forma automática, que houve saída de um lugar e chegada a outro. Esse dado não precisa ser explicado, pois faz parte da competência linguística básica de qualquer falante.

No uso normal da linguagem, o foco não está no trajeto, nem no meio de transporte, nem no momento exato da chegada. O que se destaca é a mudança de estado: alguém que não estava ali, agora está.

É exatamente assim que a língua funciona. O deslocamento existe, mas permanece subentendido, porque não é o elemento central da comunicação.


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Não é um problema de tradução, mas de compreensão linguística

Por isso, o debate em torno de παρουσία não nasce, em essência, de um erro tradutório, mas de um problema de compreensão semântica e hermenêutica.

O termo grego descreve presença.
A chegada que possibilita essa presença está pressuposta, não explicitada.

Quem entende o funcionamento normal da língua não se confunde com isso. As dificuldades surgem quando:

“vinda” passa a ser tratada como um conceito técnico rígido e autônomo;

“presença” é interpretada como algo abstrato, simbólico ou meramente espiritual.


Ambos os caminhos são falhas de leitura, não falhas do texto grego.


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“Vinda” não é tecnicamente errada, mas é semanticamente incompleta

Aqui está o ponto de ajuste fino.

Traduzir παρουσία por “vinda” não é linguisticamente incorreto. A tradução pode funcionar, desde que o leitor compreenda que o destino final da “vinda” é a presença efetiva.

O problema é que “vinda” desloca o foco do que o termo realmente expressa.

παρουσία não enfatiza:

a saída,

o trajeto,

o modo de deslocamento.


Ela enfatiza o resultado: estar presente.

Assim, “vinda” só comunica bem o sentido se for entendida como meio explicativo, não como definição do termo.


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“Presença” é a tradução mais fiel ao valor lexical

Do ponto de vista técnico, a equivalência mais direta é clara:

παρουσία → presença

chegada ou vinda → descrição do processo implícito, não do significado da palavra


Por isso:

traduzir como “presença” é lexicalmente mais exato;

traduzir como “vinda” é interpretativo;

nenhuma das duas é absurda, desde que o leitor compreenda o subentendido linguístico.



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“Chegada” como termo intermediário

Há aqui um ponto refinado e correto.

“Chegada” é mais neutra que “vinda” e menos carregada teologicamente. Ela foca no ponto final do deslocamento e evita imagens desnecessárias do trajeto.

No entanto, existe um limite conceitual:

“chegada” descreve um evento;

“presença” descreve um estado contínuo.


E παρουσία descreve melhor o estado, não apenas o instante da chegada.
Por isso, “chegada” pode ajudar a explicar o conceito, mas não substitui plenamente “presença”.


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Formulação técnica segura (sem brechas)

A questão pode ser resumida de maneira precisa da seguinte forma:

> “παρουσία significa presença, em contraste com ausência.
A presença pressupõe que antes havia ausência e, portanto, envolve implicitamente saída e chegada.
O termo não enfatiza o trajeto, mas o estado de estar presente.
Traduzir por ‘vinda’ não é errado, desde que se compreenda que o sentido real é a presença resultante da chegada, e não um conceito técnico independente.”



Essa formulação fecha o tema linguisticamente.


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Uso de παρουσία no Novo Testamento

Nos Evangelhos

Em Mateus 24, a palavra aparece repetidamente para descrever a presença ativa do Filho do Homem:

Mateus 24:3 – “Que sinal haverá da tua presença e da consumação do século?”

Mateus 24:27 – “Assim será a presença do Filho do Homem.”

Mateus 24:37–39 – A presença é comparada aos dias de Noé, não a um instante, mas a um período reconhecível de atuação.


O paralelo reforça a ideia de estado prolongado, não de evento pontual.


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Nas cartas paulinas

Paulo emprega παρουσία tanto para Cristo quanto para pessoas comuns:

Em 1 Coríntios 15:23, fala da presença de Cristo em relação aos que lhe pertencem.

Em 1 Tessalonicenses, a παρουσία do Senhor é associada a permanência, manifestação e resultado, não a deslocamento.


Não há redefinição semântica; apenas ampliação teológica pelo sujeito envolvido.


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Uso aplicado a pessoas comuns

Textos como:

1 Coríntios 16:17 (presença de Estéfanas),

2 Coríntios 7:6–7 (presença de Tito),

Filipenses 2:12 (presença × ausência de Paulo),


mostram de forma inequívoca que παρουσία significa presença pessoal concreta, em oposição direta à ausência.

Aqui não existe nenhum elemento sobrenatural, escatológico ou simbólico. Isso fixa o valor lexical da palavra.


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Aplicação ao Iníquo

Em 2 Tessalonicenses 2:9, fala-se da παρουσία do iníquo “segundo a atuação de Satanás”.

Esse texto é decisivo porque demonstra que παρουσία:

não implica divindade;

não implica origem celestial;

não implica uma “vinda gloriosa”.


Significa atuação manifesta por presença efetiva.


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Observações técnicas finais

1. Em todos os usos humanos, παρουσία significa:

presença física,

comparecimento pessoal,

atuação direta e reconhecível.



2. O Novo Testamento não redefine o termo; herda seu sentido comum.


3. Quando aplicada a Jesus, a palavra ganha peso teológico pelo sujeito, não por mudança semântica.




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Síntese final

> παρουσία no Novo Testamento significa presença ou atuação manifesta.
O contexto explica como essa presença se expressa,
mas não altera o significado básico da palavra.




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