a Bíblia eo argumento circular " ela é a palavra de Deus pq ela diz isso de si mesma "



A acusação de circularidade e a legitimidade histórica da ressurreição

A acusação comum feita por ateus é a de que a Bíblia seria um argumento circular: Jesus teria ressuscitado “porque a Bíblia diz”, e a Bíblia seria verdadeira “porque afirma ser a Palavra de Deus”. Segundo essa crítica, o texto bíblico não poderia servir como fonte confiável, pois se apoiaria apenas em si mesmo, incorrendo em falsa verificabilidade.

Entretanto, essa acusação parte de uma caracterização equivocada do que a Bíblia é. A Bíblia não surge como um único livro autorreferente, escrito por uma só mente, com autoridade autoimposta. Ela é uma coleção de documentos históricos, produzidos em épocas distintas, por autores diferentes, contendo relatos, cartas e testemunhos que circularam publicamente dentro das mesmas comunidades onde os eventos alegadamente ocorreram.

A crença na ressurreição de Jesus não nasceu da simples leitura de um texto que se autoproclama verdadeiro, mas do testemunho de pessoas que afirmaram ter presenciado os acontecimentos. Esses testemunhos foram registrados, preservados e transmitidos, e só posteriormente reunidos no que hoje chamamos de Bíblia. Portanto, não é a Bíblia que cria o evento, mas o evento que gera os registros que compõem a Bíblia.

Além disso, é incorreto afirmar que os primeiros judeus creram na ressurreição apenas por credulidade religiosa. Pelo contrário, a maioria não aceitou Jesus como Messias. Aqueles que o aceitaram o fizeram porque entenderam que sua vida, suas ações, sua morte e o anúncio de sua ressurreição eram coerentes com as Escrituras hebraicas já existentes, que antecedem o cristianismo. Inclusive, pessoas que inicialmente rejeitaram Jesus acabaram aderindo à fé cristã justamente por essa coerência percebida com os textos antigos.

Um ponto central do debate é que o ateu frequentemente exige que a ressurreição seja comprovada por algo “fora da Bíblia”. Contudo, ao mesmo tempo, qualquer evidência histórica relacionada à ressurreição é descartada como viés religioso. Assim:

rejeitam-se os documentos cristãos por serem cristãos;

rejeitam-se as Escrituras judaicas por serem religiosas;

rejeitam-se testemunhas por estarem temporalmente distantes;

rejeita-se o evento por definição, por envolver milagre.


Nesse cenário, não se trata de uma investigação neutra, mas de um filtro filosófico prévio que exclui qualquer conclusão possível antes mesmo da análise das evidências. O problema deixa de ser a falta de provas e passa a ser a recusa das categorias necessárias para avaliá-las.

A estratégia, consciente ou não, é empurrar a investigação histórica cada vez mais para trás no tempo, até um ponto em que o testemunho ocular não possa mais ser diretamente verificado, e então declarar o evento incognoscível. Contudo, esse critério, se aplicado de forma consistente, inviabilizaria grande parte do conhecimento histórico humano.

Isso é comparável a exigir um fóssil perfeitamente preservado, rejeitar todos os métodos de datação (como decaimento radioativo ou carbono-14), negar as premissas científicas envolvidas e, em seguida, concluir que não há evidência suficiente para a evolução ou para a antiguidade da Terra. Nesse caso, o problema não está na ausência de dados, mas na rejeição sistemática dos meios que levam a uma conclusão inevitável.

Portanto, a acusação de circularidade falha. A defesa da ressurreição não se apoia na Bíblia “porque ela diz que é verdadeira”, mas em testemunhos históricos preservados em documentos que podem ser analisados pelos mesmos critérios aplicados a qualquer fonte antiga. A rejeição desses testemunhos não é histórica, mas filosófica. Não é uma questão de evidência, mas de pressupostos.



Comentários

Mensagens populares deste blogue

00. respondendo a uma testemunha de jeová " porque apenas algumas testemunhas vão para o céu?

Respondendo a uma Testemunha de Jeová

01 Por que você compara Testemunhas de Jeová com a doutrina do dispensacionalismo?