Qual o seu problema com o dispensacionalismo?
Agora segue o seu texto original, com as Escrituras agregadas.
---
Vamos conversa sobre o meu problema com o dispensacionalismo. Há certo tempo, eu acreditava que o dispensacionalismo era a linha mais bíblica. Mas, quando eu comecei a revisar, comecei a perceber alguns paradoxos. E, para mim, não faz mais sentido pensar assim.
Por exemplo, a promessa do Espírito Santo em Atos 2: Pedro diz que aquela profecia do profeta Joel estava começando a se cumprir.
“Então Pedro se levantou com os Onze e, em alta voz, falou ao povo: ‘Homens da Judeia e todos vós que habitais em Jerusalém, fique isto bem claro aos vossos ouvidos. Estes homens não estão embriagados, como pensais, pois é apenas a terceira hora do dia. Mas cumpre-se o que foi dito pelo profeta Joel:
E acontecerá nos últimos dias – diz o Senhor – que derramarei do meu Espírito sobre toda carne; vossos filhos e vossas filhas profetizarão, vossos jovens terão visões e vossos anciãos sonharão sonhos.
Sobre meus servos e sobre minhas servas derramarei do meu Espírito naqueles dias, e profetizarão.
Farei aparecer prodígios no céu e sinais na terra: sangue, fogo e vapor de fumaça.
O sol se converterá em trevas e a lua em sangue, antes que venha o grande e glorioso dia do Senhor.
E então todo aquele que invocar o nome do Senhor será salvo.’” (Atos 2,14-21 – cf. Joel 3,1-5 [2,28-32])
E as pessoas estavam sendo batizadas no Espírito Santo e recebendo o dom do Espírito.
“Pedro ainda estava falando, quando o Espírito Santo desceu sobre todos os que ouviam a palavra.” (Atos 10,44)
“Arrependei-vos, e cada um de vós seja batizado em nome de Jesus Cristo para a remissão dos pecados, e recebereis o dom do Espírito Santo.” (Atos 2,38)
Para isso se cumprir literalmente no futuro, teria que existir nos mesmos termos.
Tipo agora: crer em Cristo = receber o selo e o dom do Espírito e ser agregado ao corpo;
“Em Cristo também vós, depois de terdes ouvido a palavra da verdade, o Evangelho da vossa salvação, e de nele terdes crido, fostes selados com o Espírito Santo da promessa.” (Efésios 1,13)
“Pois todos nós fomos batizados num só Espírito para formar um só corpo, quer judeus, quer gregos, quer escravos, quer livres; e todos fomos saciados de um só Espírito.” (1Coríntios 12,13)
esse indivíduo é um novo homem, criado segundo a imagem de Cristo, e do qual faz dos dois povos um...
“Ele é a nossa paz. Ele que dos dois povos fez um só, destruindo o muro de separação que os dividia, isto é, a inimizade.
Ele aboliu na sua carne a lei dos mandamentos expressos em preceitos, para criar em si mesmo, dos dois, um só homem novo, fazendo a paz.” (Efésios 2,14-15)
O problema é que, no dispensacionalismo rígido, a divisão permanece após o arrebatamento. Por algum motivo, isso teria de ter tempo, tanto nas condições como nas promessas...
Tipo: a mesma graça, a mesma fé na mesma obra gera naturezas diferentes a um outro novo homem, um outro novo conjunto com promessas distintas fora do corpo... e relações diferentes com o Espírito. Pelo simples fato de alguns se converterem anos mais tarde, após o arrebatamento.
Por exemplo, a promessa de um derramamento com o Espírito Universal. Não faz sentido se o Espírito vai ser retirado sete anos antes e ser derramado outra vez sete anos depois — ou com uma aproximação variável, que não é fixa nesses sete anos.
Se o derramamento de Joel inclui gentios e judeus no corpo, pouco tempo após o arrebatamento o critério muda.
Ou seja, colocando em pormenores, não faz sentido. Pedro une as passagens do Antigo Testamento para comprovar o corpo de Cristo.
Se haverá no futuro um cumprimento distinto para um derramamento do Espírito distinto, mas no qual as pessoas não vão receber o Espírito — vai estar apenas sobre elas, mas não habitando nelas —, também não faz muito sentido.
Ou seja, Pedro estava usando aquilo para fundamentar a doutrina do corpo de Cristo, mas a profecia inicial de Joel estaria se referindo a outro evento distinto.
E Ezequiel fala: “porei dentro de vós o meu Espírito”,
“Eu vos darei um coração novo e porei dentro de vós um espírito novo; tirarei de vós o coração de pedra e vos darei um coração de carne.
Porei dentro de vós o meu Espírito e farei que andeis segundo os meus preceitos e observeis e pratiqueis as minhas leis.” (Ezequiel 36,26-27)
e há várias passagens que falam sobre Deus pôr o Espírito d’Ele dentro de Israel e em cada indivíduo em particular:
“Infundirei em vós o meu Espírito e vivereis; eu vos colocarei no vosso solo, e sabereis que eu, o Senhor, disse e fiz.” (Ezequiel 37,14)
“Derramarei sobre a casa de Israel o meu Espírito, diz o Senhor Deus.” (Ezequiel 39,29)
“Dar-lhes-ei um só coração e porei neles um espírito novo.” (Ezequiel 11,19)
Em todo o Antigo Testamento, a Nova Aliança sempre é veiculada ao Espírito; não há Nova Aliança sem Espírito.
“Farei com eles uma aliança eterna, e não deixarei mais de lhes fazer o bem; porei o meu temor em seus corações para que não se afastem de mim.” (Jeremias 32,40)
Em Isaías, Deus promete enviar o mensageiro da aliança com o Espírito.
“O Espírito do Senhor Deus está sobre mim, porque o Senhor me ungiu.” (Isaías 61,1)
E, no Novo Testamento, a forma como os apóstolos interpretavam o derramamento do Espírito era justamente para reunir os filhos de Deus num corpo.
“A todos os que o receberam, deu-lhes o poder de se tornarem filhos de Deus.” (João 1,12)
A pergunta é: por que o derramamento do Espírito depois da Grande Tribulação seria diferente do derramamento que inaugura o corpo de Cristo?
Em Gálatas 3, Paulo faz uma clara paráfrase de Joel, unindo a profecia dele ao corpo de Cristo:
“Não há judeu nem grego, não há escravo nem livre, não há homem nem mulher; pois todos vós sois um só em Cristo Jesus.” (Gálatas 3,28)
Isto é: a forma como os apóstolos entendiam é que só há harmonia dentro do corpo.
“Ele é a cabeça da Igreja, que é o seu corpo, a plenitude daquele que enche tudo em todos.” (Efésios 1,23)
E também:
“Pois todos vós sois um só em Cristo Jesus.” (Gálatas 3,28)
Perde o sentido se alguns ficam fora por causa do arrebatamento.
“Israel futura não pode entrar na igreja, porque uma tem esperança celestial e a outra terrestre.”
O apóstolo Paulo ensina que a lei foi dada como um tutor até que viesse Cristo,
“A lei foi nosso pedagogo até Cristo, para que fôssemos justificados pela fé.” (Gálatas 3,24)
e que o cumprimento e o fim dela é na justiça da fé no corpo de Cristo, ou seja, o cerne da lei.
“Porque o fim da lei é Cristo, para a justificação de todo aquele que crê.” (Romanos 10,4)
Isso não significa que as profecias sobre o templo e sobre a nação não serão cumpridas literalmente; pelo contrário, o culto e as promessas estarão mais claros com Israel no corpo e não fora dele.
O fato de Israel entrar no corpo não forma uma redoma dentro do corpo de Cristo, como na teoria dos conjuntos; pelo contrário, as profecias se cumprirão no milênio literalmente. Todas as profecias sobre o Israel futuro acontecem com eles incluídos no corpo.
A promessa foi feita a Abraão e ao seu descendente: Cristo.
“As promessas foram feitas a Abraão e à sua descendência. Não diz: ‘e às descendências’, como falando de muitos, mas como de um só: ‘e à tua descendência’, que é Cristo.” (Gálatas 3,16)
Todas as promessas desde antes da lei se cumprem em Cristo.
“Quantas forem as promessas de Deus, nele está o ‘sim’.” (2Coríntios 1,20)
A nova ordem segundo Melquisedeque acontece justamente em Jerusalém.
“Tu és sacerdote para sempre, segundo a ordem de Melquisedec.” (Salmo 109[110],4; Hebreus 7,17)
As promessas de um sacerdote e nova aliança só incluem o corpo de Cristo.
“Ele é mediador de uma nova aliança.” (Hebreus 9,15)
Há quem pense que a Nova Aliança inclui uma a aliança para Israel e para a igreja, mas que Israel não tem os mesmos privilégios. No entanto, eles estão debaixo da mesma graça, no mesmo evangelho, na mesma fé, etc., e mesmo assim teriam recompensas distintas...
1. Hebreus e a Assembleia dos Primogênitos
Hebreus 12:22-24 descreve a assembleia celestial:
"Mas vós vos chegastes ao monte Sião e à cidade do Deus vivo, à Jerusalém celestial, e a miríades de anjos, à congregação dos primogênitos que estão inscritos nos céus, ao juiz de todos, aos espíritos dos justos aperfeiçoados, e a Jesus, Mediador de uma nova aliança..."
Aqui, o autor conecta os fiéis do Antigo Testamento com a realidade celestial antes mesmo da consumação final na terra.
Implicação: Alguns dos crentes do Antigo Testamento (como Abraão, Moisés e outros patriarcas) já participam de um reino/assembleia celestial. Isso conflita com a visão dispensacionalista, que muitas vezes adia qualquer participação celestial para o futuro, depois da ressurreição.
2. Abraão e a cidade com fundamento no céu
Hebreus 11:10 diz:
"Pois esperava a cidade que tem fundamentos, cujo arquiteto e edificador é Deus."
Abraão não buscava uma terra física como herança final, mas algo celestial e eterno, antecipando a realidade que a terra consumada receberá como desfecho em Cristo.
Ponto crítico contra o dispensacionalismo: Se a promessa de Abraão aponta para algo celestial, o modelo que separa Israel “na terra” e Igreja “no céu” perde consistência, porque a Escritura mostra que o destino final é em Cristo, unificado, não em esferas paralelas.
3. Salmo 96 e o descanso de Deus
Em Hebreus 4:1-10, o autor aplica o Salmo 95:11:
"Portanto, resta um repouso [sabbath/rest] para o povo de Deus."
O “descanso” de Deus citado não é literalmente na terra; é um descanso celestial, espiritual e presente para os fiéis, ainda que a consumação final da criação ocorra futuramente.
Consequência: Não se trata de adiar o descanso à terra futura (como faria um dispensacionalismo rígido), mas de um repouso já acessível aos que crêem, inclusive retroativo para os do AT, como os primogênitos inscritos nos céus.
Síntese do argumento:
Hebreus e os Salmos citados mostram que a presença e a recompensa celestial começam antes da consumação final, unindo o AT e o NT em uma realidade contínua no céu.
O dispensacionalismo, ao dividir promessas, Israel e Igreja, ou adiar recompensas e reino, ignora esse padrão bíblico: o céu é real, presente, e acessível aos justos antes da ressurreição final.
Isso reforça o desfecho cristocêntrico: todas as promessas, mesmo do AT, apontam para Cristo e o reino celestial, e não para uma terra futura separada.
Comentários
Enviar um comentário